sábado, 9 de outubro de 2010

Eu sei, mas não devia.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Texto de Marina Colasanti.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Free Hugs Campaign....

Um tempo atrás, mais precisamente em um domingo de solidão e questionamento, resolvi caminhar em um parque de Curitiba. Andei, andei e andei. Só parei quando vi uma dupla sorridente com placas de free hugs campaign... Abraços grátis!

Primeiro, quando vi de longe, o que me chamou a atenção foi a alegria daquelas duas garotas. Coisa rara em Curitiba. Todos aqui são bem fechados e sorrir para estranhos é algo bem raro.

Quando vi a placa lembrei que já tinha visto na televisão uma campanha dessa que aconteceu em São Paulo. O humor daquelas pessoas era contagiante. Ri gostoso e me diverti com a reação das pessoas. Inclusive a minha. Eu não sabia se abraçava, se só sorria, se parava. Enfim....

Depois da passagem dessas garotas fiquei pensando. Como existem pessoas que transformam nosso cotidiano corrido. Você já parou para pensar como a gente corre e sempre está atrasado... atrasado para a vida? Tem trabalho demais, prioridades demais, coisas demais. E se amanhã a gente simplesmente não tiver nada. Se a gente morrer. Se a gente não der conta de viver?

Aff... quantas questões pipocam na minha mente. Acho até melhor parar de escrever e abraçar alguém, afinal é grátis.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Não achei um título adequado!

Entre pernas, passos e tropeços a gente vai deixando algumas coisas pelo caminho e encontrando outras... O que não pode é se subtrair. O processo tem que ser de acréscimo, sempre. Nada é tão definitivo assim e a gente nunca É, a gente ESTÁ...

Sempre digo que quem se aprofunda nas coisas, quem mergulha, sabe exatamente o gosto que tem o alimento cru porque não se contenta com o que está pronto, posto sobre a mesa.

A gente vai experimentando aqui e acolá, vai sentindo o ritmo, o tempo, tendo cuidado com algumas coisas e desrespeitando as placas de aviso de perigo de outras. A gente cai, levanta, chora, celebra. A gente vive. A gente se conhece através das reações dos outros a nós mesmos.

A gente trabalha ou estagna, regride ou evolui. A escolha é sempre nossa. Tal como as consequências. A gente resolve se entregar quando é tarde pra descobrir que pra respeitar o nosso próprio tempo, é preciso lembrar e ter o mesmo respeito pelo tempo do outro. E que muitas vezes, pra ser honesto, é preciso correr um risco do qual não queremos. Mas a gente corre.

A vida real, muitas vezes, nos é apresentada pulsante, em carne viva, sem maquiagem. Com as veias todas à mostra. O que pode ser desagradável de se ver ou emocionante como um parto...

O que posso dizer é que existem na vida pessoas sedutoras e seduzíveis por quem nos apaixonaremos "definitivamente" todos os dias e que amaremos "para sempre" hoje!

Sei que os grandes relacionamentos que tive foram os que me renderam as melhores metáforas. Que me despertaram uma vontade constante de ser uma pessoa cada vez melhor e mais inteira. Que me deram colo e não conselho e beijo na boca quando o silêncio ainda era a melhor resposta. Algumas dessas pessoas se foram antes que eu pudesse lhes contar uma história bonita e eu chorei feito menina. Outras ficaram até descobrir que uma caixa de lindt era o melhor presente que eu poderia ganhar no meio de uma noite triste... Outras, ainda, me cobraram respostas demais e eu só sabia que nunca aprendi a nadar porque tenho medo de água (o que por um lado pode ser também resposta para várias outras coisas).

Mas todas essas pessoas me desenvolveram e isso ficou comigo; são minhas porque faziam parte do meu potencial amoroso e elas vieram só pra me conduzir ao melhoramento do meu amor.

Hoje o meu grau de exigência aumentou muito porque aprendi que dar amor não é a mesma coisa que dar carência. Por isso fico sozinha pelo tempo que for necessário para ter novamente essa sensação de "encontro". Abandonei um monte de certezas, recuso sem pudor algumas regras e desrespeito várias vezes as placas de aviso de perigo.

Me divirto muito ou sofro, mas tenho cada vez mais faisquinhas nos olhos por viver as coisas em sua totalidade, sem recusar experiências e aproveitando diversas possibilidades.

Agora, tem um lado muito romântico meu que diz que a "tal pessoa" virá e enroscará uma margaridinha nos meus cabelos, fazendo pousar no meu rosto o sorriso de um beija-flor... ;-) e plagiará Neruda sussurrando ao pé do ouvido: "Quero fazer com você, o que a Primavera fez com as cerejeiras..."

É isso. Pule no tal abismo quando seu coração bater tão forte que só te restará pular. Vc só vai saber se fez a coisa certa, fazendo-a. Só se pode falar do que se conhece e não há como conhecer pela superfície, é preciso tocar verdadeiramente nas coisas e então, se deixar ser tocado por elas. O importante é lembrar que a escolha é sempre nossa e que no momento em que tudo nos foge ao controle é porque chegamos na parte mais importante do aprendizado.

Que o medo não tenha tanto poder sobre nós... E que não fiquemos condicionados por experiências anteriores -- há sempre uma oportunidade de surpresa, mas teremos que estar abertos a isso. Nada é tão definitivo.


"Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que mereço/ Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada / Porque metade de mim é o que penso / A outra metade é um vulcão." (O.Montenegro)

sábado, 28 de agosto de 2010

Uma ou duas vinas?


Quem disse que é preciso sair do Brasil para aprender outra língua? Em Curitiba existe todo um vocabulário próprio. Em uma das minhas idas ao hospital para internar funcionário a fome bateu. Olhei para os lados, um carrinho de cachorro quente!!! OBA!!!! Adoro!!!
Pedi o cardápio e estava lá – pão, duas vinas, vinagrete, purê de batata. UAI.... VINA?!?! Questionei – Moça!?!?!? Vina quer dizer salsicha?!?! A mulher, bem antipática, típico do povo daqui, disse. SIM. Nem tive coragem de perguntar porque vina. Ela tinha uma cara muito brava.
O tempo passou e eu esqueci de pesquisar porque vina, até que fui jantar com uma amiga curitibana e no cardápio apareceu a maldita VINA. Ai perguntei a ela!!!!
A palavra “vina” em alemão quer dizer VIENA que define um tipo de salsicha consumida pelos alemães. Salsicha, na verdade, é “wurst”, o que formava Wienerwurst, ou seja, Salsicha de Viena. Mas quando outros imigrantes de origem não germânica provaram o prato, e diante da dificuldade em pronunciar a palavra wurst, adotaram a palavra Vina, designando qualquer tipo de salsicha. Só aqui é assim!
Ahhh... fora outras coisas engraçadas- calcinha é elástico de cabelo; piá é um menino; guria uma menina; mimosa é tangerina; polaco é uma pessoa branquinha, loira; azeite é óleo de cozinha; penal é estojo.
Portanto, quando vierem passear por aqui já sabem o significado das gírias mais bizarras da cidade.